O afastamento do governador Wanderlei Barbosa, após a deflagração da Operação Fames-19, mergulhou o Tocantins em mais um escândalo de corrupção. O baculejo da Polícia Federal expôs um verdadeiro esquema de raposas sedentas por dinheiro: no gabinete do governador foram encontrados R$ 32 mil em dinheiro vivo, enquanto, em uma das casas da secretária Valderez Castelo Branco, ex-deputada estadual e atual chefe da pasta do Trabalho e Desenvolvimento Social, foram apreendidos cerca de R$ 700 mil em espécie.
O fantasma que assombra Barbozão é o mesmo que já levou outros ex-governadores ao cárcere. Sandoval Cardoso, Marcelo Miranda e Mauro Carlesse, cada um em seu tempo, acabaram atrás das grades após investigações semelhantes. Agora, com a força-tarefa da PF revelando um esquema milionário de desvio de recursos destinados à compra de cestas básicas durante a pandemia da Covid-19, o mandatário afastado e seus supostos comparsas terão de explicar não só os valores aprendidos pela PF mas também as provas contudentes do esquema fraudulento. Eles temem serem os próximos a verem o sol nascer quadrado.
As apurações indicam que, entre 2020 e 2021, enquanto a população enfrentava a maior crise sanitária do século e famílias passavam por dificuldades em meio a pandemia , recursos que deveriam garantir a dignidade mínima foram drenados em contratos fraudulentos. Empresas de fachada eram contratadas para fornecer alimentos, recebiam valores elevados e entregavam apenas parte dos produtos. A fraude teria causado um prejuízo de mais de R$ 73 milhões aos cofres públicos.
O dinheiro desviado, segundo a investigação, não ficou parado. Foi lavado por meio da construção de imóveis de luxo, compra de gado e pagamento de despesas pessoais. Um dos símbolos desse suposto enriquecimento ilícito é uma pousada de alto padrão em Taquaruçu, nas serras próximas a Palmas, que teria recebido aportes milionários vindos do esquema.
Além de Barbosa, também foi afastada do cargo a primeira-dama, Karynne Sotero Campos, que ocupava a Secretaria Extraordinária de Participações Sociais. O inquérito aponta que ela e o marido comandavam, junto a servidores, empresários e parlamentares, a engrenagem que movimentava os desvios. Ao todo, dez deputados estaduais são citados como beneficiados pelo repasse de emendas em troca de vantagens indevidas.
Diante do cerco, Barbozão tenta se defender, alegando injustiça e precipitação na decisão do Superior Tribunal de Justiça. No entanto, o peso das acusações, as apreensões em espécie e o vasto material já em posse da Polícia Federal mostram a gravidade do esquema, tornando sua situação insustentável. Com o afastamento de 180 dias já em vigor, a única dúvida que resta é quando Barbozão será conduzido à prisão, enquanto o vice-governador Laurez Moreira (PSD) assume o comando do estado, marcado pela profunda crise de corrupção.
